quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Algo que toque, que doa, atice.
Algo que não se explica, arrepie.
O ar gelado no momento certo.

Barulho do vento na pausa dramática.
Quente na bochecha. Frio na barriga.

O segundo anterior ao primeiro beijo.
O minuto depois do último.

O grito e depois a trégua.

A testa no pé da amada.

O milho grudado no joelho.

O ar dentro do copo.

O toque esperado.

A ânsia e o tato da face na pedra.

A lágrima que não sai.

A palavra que não existe.

O momento antes do sopro da vela.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

entupido de nada

entup
ânci
vaz
no
peito

ench
o
talo
aténãopodermais

de
comid
fumeremed


tossescuro

preto
do
carbono
dacinzadafumaça

nacarnexposta
mordiscacachorro

cinzaepoeira
dasquatroparedes

apertaperta

pracabercabeçanaTV
somesquecenãovê

solnascenahorerrada

ahorapramimnãotádemãodada

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ecos de agonia ltda

















Inspira profundamente à procura do ar que parece não satisfazer
Levanta, senta e perambula em círculos sem nenhum objetivo
Passeia por letras sem conseguir concentrar-se em nada
O livro aberto, alheio às baforadas da janela
Suor escorre e pinga ao tremor do corpo
Olhos correm por fotografias e quadros empoeirados
Reflexo do ser inquieto nas negras telas desligadas
Som do pulso acelerado atravessa tic-tac do ponteiro, mistura quase inaudível, mas terrivelmente perturbadora
O telefone mudo sobre a mesa
caixas de entradas vazias
corredor surdo atrás porta
ruídos longínquos de evoé ecoados no ouvido de lata vazia
Dentro do ser, espécie de formigamento parece soar como trezentas cigarras desesperadas
Cinzeiro cheio, xícara suja de café, maço vazio
e nada
nada mais
além de um gosto amargo, e tremores
vácuo inexplicavelmente vibrante
um vazio que poderia ser preenchido com leitura, se conseguisse
Pálido rosto suado se funde na atmosfera tom amarelo seco
Inexistente som contínuo ecoa no corpo em curto circuito
entre destroços indecifráveis da alma
Violão desafinado parece encarar e rir da ignorância
do vazio e desnorteado ser
Nenhum vestígio do que aconteceu
se é que aconteceu.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

um brinde a tempestade que trouxe a trégua
ao silêncio, que veio ao sono

brindo o malfeitor, que clarificou
e a lágrima que já se foi

sábado, 6 de junho de 2009

abstração

Os sentimentos são antes da razão. O estado do ser é uma mistura de vontade com realidade, de história com presente.
Nem sempre conseguimos sobrepor um querer sobre um não querer distinto.
É justamente por ser intrínseco à vida que estes estados nos envolvem, tornando muito difícil respirar outra atmosfera; talvez seja possível realmente, depois de muita busca, achar um espaço onde já não sinta. E neste, já então modificou-se. É justamente nesta busca incansável que é lutar contra si próprio, no conflito de vontades, que achamos conseguir fugir disto, que nos aparece a cada momento.
Quanto menos forte for este estado, mais facilidade há de contorná-lo.
Algumas coisas nos atingem, mas são apenas um dos leves temperos do todo. Outras vezes nos encharca um balde tão denso e quente, que não é fácil deixar de percebê-lo.
Alguns simplesmente vivem com este molho a arder e nada fazem para aproveita-lo melhor.
Outros se afogam nos sabores, prazeres e dores, de acordo com a maré.
Há também os que se agarram em uns temperos fortes, e não enxergam bem o que mais lhes aparece.
É justamente esta distinção de vontades, de sentidos, que diferencia cada um de nós, de acordo com o grau evolutivo.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

manha da manhã

Sol nasce
dia frio
nublado, mas claro.
Ainda se esconde atrás dos morros
enquanto toda sua vida acorda
neste lado
enquanto outro adormece, ele segue.
Os pássaros, deste, cantam a doce brisa
as ondas calmas anunciam dia manso.
Orvalho ainda presente recebe mais uma dose
leve manta d’água
lentamente encosta as folhas verdes.
Leves gotas levadas
pela brisa matinal
de um dia único.
Cinza-azulado dia frio
cravado na vegetação
concreto, asfalto
química humana.
Aos poucos mais rodas circulam
chiam motores
pneus afastam manta d’água e orvalho.
Mas ainda cantam os pássaros
e brisa assobia mansa
e as ondas borbulham brancas.
Raios de luz dourada surgem por entre véu nublado
cheiro de café
pão com manteiga
aos poucos se dissolvem desprezados
pela paisagem de concreto e ferro.
Os sons dos motores ainda frios sentem sua matéria mãe
desculpam-se por tal natureza volátil, indefesa
transformados em armas contra a própria
gritam desconhecidas.
Mas ainda sim
bate a brisa mansa,
ondas brancas,
piam os pássaros,
raia o sol
de mais um novo dia único
e belo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"o animal do tempo"

Sobre o vazio do eu
sobre a palavra
não importa a palavra
importa o significado dela pra você
e o valor que ela te traz
identificação
sobre o buscar da vida
o propósito dela
sobre a morte
sobre o que fazemos enquanto encarnados
sobre o não movimento
sobre o movimento
da vida aqui
da vida de lá
ou da vida como um todo
o continuar
o desperdiçar de tempo
sobre a droga
pra mim
tempo perdido
culto ao ócio
Mensagem é que nós andamos para cair
criando o próprio buraco
qual o sentido?
Muitos de nós
acumulamos
coisas
tornamos cada vez mais afastada
visão sobre a vida e o seu trabalho
qual é o itinerário?
As pernas, patas, andam
animal, homem
é o instinto dele dar o primeiro passo
patas andando
em círculo
afinal o mundo é uma bola
a cidade e o trem continuam passando
mesmo de cabeça para baixo
sou eu parte de um
eu um
mais uma cova
animal
caindo a todo buraco à sua frente
Esqueceram a evolução in
individual
individualidade material
egoísmo egocentrismo
animal
antes sublime quanto um pássaro
que sabe da sua dependência grupal
bando quieto
sublime, só som
ação
experiência
a vivência é estipulada
a quem nada aconteceu, eu
só palavras
como um galo as pronuncio cheio de pompa
no meio da multidão
Onde se esconde o pensamento dentro de um divertimento?
Observação sem ação
contradição
dele
minha
assim como qualquer
animal
se esconde na fumaça da cidade
dia a dia
eu múltiplo
dois hemisférios
se cruzam
o da direita, esquerda
o da esquerda, direita
eles se batem
me sinto sugado,
fora
assumo meu eu
que eu sofro
eu assumo que sofro
a identificação
que tem quer ser
observada a partir do seu eu
um deles
algum pensamento
construído a base de memórias
memórias essas que se não vividas
não existiriam
.identifica
quero saber, ter certeza
de que
não é possível isso
também pra você
ou do que a palavra permite confundir
do que é estranho
João pediu pra morrer sem nem saber o nome
a vida dele agora fora
encarna em quem se doa a palavra
para a felicidade de quem doa
de quem fala
conta cada um
cada mais um
dá nome
aos animais que apreciam sua música
canta e dança com eles
mesmo que seus animais sejam calados
atentos a cada nota
joão me falou:
"chega mais perto de você e vive"
os olhos de joão pareciam tristes quando pronunciava:
“Eu sou o homem a quem nada aconteceu”
eu gosto de me condoer com o sofrimento do outro
aprendo muito mais com erros do que acertos
eu também quero falar, joão
deixa eu ouvir quietinho
espera tua semente crescer
eu somo, joão, somo sementes,
somo histórias,
somo identificações
e vou ser feliz também
cantando e existindo de verdade
numa planície
com meus afinados
e errando com eles
joão também deu primeiro passo
em direção a cova
vamos todos morrer, joão
vamos cair em buracos
no plural
levanta-te
para cair novamente
mas levanta-te
cada queda é uma experiência
por enquanto eu penso
as coisas precisam se concretizar
a idealização excessiva já está me irritando
mas acontece
eu penso
eu escuto
quero sair desse buraco
vou estar pensando em sair
na saída
e a vida
continua
.preparação é tudo, preparação
eu não vou sair pronto
mas vou sair forte
seguro
pra falar que eu sou
ou deixar o eu que não sou mas que acredito ser
bom
ser
falar com meu
minha boca articular
meu ventre contrair
meus olhos ver
meu eu
e o que ele

deixar o olhar seu, de alguém
ou meu
misturado com seu
pronunciar, jõao
ver e iluminar o que é
o que existe além das cansáveis palavras
pronunciadas
deliciadas a cada suspiro
meu
seu
ou a falta dele
mas eu acontece
eu será
alguma coisa
. joão também
ele já não
cair nos pequenos buracos da terra
ele animal
cansado.
Eu tropeçarei quando me levantar, na velocidade de dar cambalhotas.
João visitará outros buracos pra se enfiar
Mas talvez nem se chame mais buraco
talvez não seja como o buraco que tem na cabeça dele
ou não seja mais um buraco
palavra sozinha não é nada.
É
mas também não é
demora pra deixar o olho iluminar
é lindo
hipnotizante
quase a palavra é nada
é além de palavra
é imagem cerebral.

24/04/2008, 02:10:06